Revisitações à Torre de Marfim

A exposição pretende dar conhecimento alargado da produção plástica de José Régio, enquadrando-o enquanto literato, e retirando-o do lugar de mero desenhista. Assim, em articulação com as Direções Regionais de Cultura, pretende-se dar à exposição uma dimensão nacional, cientificamente suportada por um catálogo de referência garantindo perenidade desta exposição por vários Museus Nacionais.

 

O lugar do desenho

“- Dei alguns versos meus a ler (…). Todos mos gabaram, e eu sinto certa consideração nos seus modos para comigo. No entanto, os seus cumprimentos quase me entristeceram: O que eles mais gostaram nos meus versos não foi, talvez, o que eles têm de melhor: a sua originalidade e a sua humanidade.

– Busco uma fórmula que resuma o fim da minha Arte. Te [sic] achar melhor, proponho-me esta: Revelar, numa forma toda criada em relevos ou sugestões, quanto há em mim de simultaneamente mais humano e mais íntimo.”

José Régio, 22 de Fevereiro de 1923

Páginas do Diário Íntimo

 

Nos fragmentos do diário de José Régio, redigidos na reclusão da Torre de Marfim, fixaram-se as impressões primeiras para a sua arte, conseguidas na transparência da comunicação para consigo mesmo, no qual estabelece as marcas do ideário regiano, tão poeticamente plasmado no grito que é – Cântico Negro.

“Não sei por onde vou,

– Sei que não vou por aí!”

Versos finais do poema para o volume de poesia Poemas de Deus e do Diabo, surgem marcados pela rutura e pelo ímpeto de “invenção, criação e descoberta” n’ “aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e por isso mesmo passa a viver de vida própria”, passa a ser literatura viva.

Na longa experiência da presença teoriza um dos seus grandes projetos, o da unidade das artes, assente na descrição das relações de “interdependência” e de “intercâmbio” dos sentidos. Esta, no articulado com a “busca” por uma fórmula síntese, desperta um entendimento outro para os desenhos dos cadernos de Novos Poemas de Deus e do Diabo, manuscritos de 1926-27 e 1927-29.

Desenhos de cariz intímista, referências do imaginário do poeta, fixados a tinta-da-china, aguada, lápis de cor e cera pigmentada, consolidando o risco prévio a grafite, marcam o manuscrito do autor, ora incluídos na tessitura do poema, ora antecipando-o ou sucedendo-o, materializando a impressão fugaz que lhe parecia escapar.

Apesar das qualidades plásticas expressivas, estes ignoram a ambição da “obra perfeita”, surgindo enquanto hipótese para os “relevos” e “sugestões” da humanidade do artista, na sua “riqueza, complexidade, originalidade e singularidade”, parte de um sistema poético em experimentação.

                O lugar do desenho no processo e laboratório de criação de José Régio, da qual a Torre de Marfim é o símbolo, ultrapassa a exclusividade de parte da fórmula ou sistema poético, ele multiplica-se em soluções díspares, disseminando-se e contaminando a demais produção literária do autor, em propostas merecedoras de constantes [re]visitações.

Comments are closed.